Quando chove
No princípio, era escuro. Então, choveu. Começou fraco, gotinhas soltas contra o telhado, pequenas e tímidas. Esse foi o começo. Conforme os minutos seguiam, ela deixou de ser acanhada e sorriu mais, deu olá para o teto, ruas, avenidas e riu. Primeiro eram batidas separadas, rareadas. Depois, mais e mais. Porém, o garoto na cama escutou desde o seu começo. Naquela noite, não dormiu direito. Permaneceu acordado, com o olhar no telhado, mesmo que não o visse. Talvez fosse cansaço, não sei. De quê? Pergunta a si. Ele respira fundo, a noite é dos vagabundos e poetas, mesmo que ele não seja nenhum dos dois. Sem muito o que fazer, fecha os olhos e escuto. Aí, começa o negro, seus olhos fechados, depois, a sinestesia de tudo. No escuro, ele via os pingos no telhado, quase nele, acho que alguns realmente estavam. No escuro, a cada pingo, pintava de uma cor. Ele via os pingos caírem e sentia seu choque. Imagens borbulham na mente, abstratas. Mudanças de cores e sensações, aquil...