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Mostrando postagens com o rótulo Crônicas

Quando chove

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No princípio, era escuro. Então, choveu. Começou fraco, gotinhas soltas contra o telhado, pequenas e tímidas. Esse foi o começo. Conforme os minutos seguiam, ela deixou de ser acanhada e sorriu mais, deu olá para o teto, ruas, avenidas e riu. Primeiro eram batidas separadas, rareadas. Depois, mais e mais. Porém, o garoto na cama escutou desde o seu começo. Naquela noite, não dormiu direito. Permaneceu acordado, com o olhar no telhado, mesmo que não o visse. Talvez fosse cansaço, não sei. De quê? Pergunta a si. Ele respira fundo, a noite é dos vagabundos e poetas, mesmo que ele não seja nenhum dos dois. Sem muito o que fazer, fecha os olhos e escuto. Aí, começa o negro, seus olhos fechados, depois, a sinestesia de tudo. No escuro, ele via os pingos no telhado, quase nele, acho que alguns realmente estavam. No escuro, a cada pingo, pintava de uma cor. Ele via os pingos caírem e sentia seu choque. Imagens borbulham na mente, abstratas. Mudanças de cores e sensações, aquil...

Inacabados

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Eram 6 horas e a rua já começava a escurecer. Os raios amarelados batiam no meu rosto, o que não me impedia de continuar, na verdade, me fazia ir mais além. Enfim, era realmente isso o que eu queria e quero, distração. Um momento de lucidez. Acredito que essa deve ser a hora de contar-lhes o meu destino, mas não tenho um. Por isso, lhes direi o cenário. Era uma rua movimentada de uma cidade razoavelmente grande. Nesse horas da tarde, o horário de pico, as pessoas já saem de seus trabalhos e pipocam as ruas com seus carros. Pergunto-me se elas também sabem para onde vão, se para casa, já é um enorme progresso. Bom meus amigos, talvez esse seja o grande motivo para essas linhas, a falta de um destino. Um que faça tudo surgir com um sentido. Essa palavra me incomoda, sentido, nunca soube o que significa e nem sei se algum dia fará, ironicamente, um sentido. Imagem de Free-Photos por Pixabay

Depois das cortinas

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E u sempre escrevo, isso é bom. Eu me expresso por meio das palavras e gosta de sua fluência. Dos riscos e traços se desenhando no branco, cada signo com um significado. Um que é meus próprios sentimentos. Deságua as sensações em torrentes pretas no papel. Aristóteles dizia que escrever era como fazer uma mímese da realidade, uma cópia. Não totalmente precisa, mas um olhar. O de quem escreve para quem ler. E assim, vocês sentem. Sentem o que eu sinto. Por incrível que pareça eu teço uma imagem, feita com as linhas das palavras, teço e vocês seguem a reza. Mas eu sempre escreve de tudo, do que vivo e sinto. Na maioria das vezes, despejo minhas crises no branco, porque ele traduz o que passo. Normalmente, crio o espelho que é apontado para vocês. Mas percebi, faz tempo que não escrevo. Digito minhas incertezas fluentes na correnteza, mas não tem nenhuma. Nada de grandes momentos existenciais, nem a melancolia típica dos grandes poetas e escritores. Meu Deus, talvez esteja deixand...

O tom da insônia

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D epois de horas de insônia, quando o cansaço realmente bate e o sono expira, percebo que tudo tem um tom. Cada batida variante de altura a intensidade, cada clique e tique do relógio a marcar mais e mais horas, tempo e tempo, sono e sono, vida e vida. Vida e fim. E a cada tique parecia que eu em agonia era obrigado a olhar ainda mais para o teto preso ao meu mundo de pensamentos, que como todo outro som tem tom. E o escuto, fragmentado e a ressoar na mente, cada pensamento borbulhante e tremeluzente que me cega, cada reação química, cada lapso do meu próprio tempo em pensamento. Para outros, horas, para mim séculos. Séculos de mim mesmo em mim. Em um mundo meu, pensando em cada passo que fiz cada acerto e feito ou erro. Tudo, o que me faz e que me permiti me chamar de eu. Partes incoerentes, pedaços de um todo espalhado que em síntese, sou. Que misturadas e embaralhadas tentam criar algum significado, tudo para mim. Porque, no fim, realmente era eu. Nesse ...

O desafio dos sonhos

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V ocê aceita um desafio? Calma, tudo que peço é só uma coisa, que vejas de verdade...   E para isso você terá que parar e então, inteiramente, olhar. Assim o digo de verdade, com um olhar genuíno.   Olhando para tudo, cada detalhe, com olhar de criança. Olhe para perto de ti, para as doces árvores plantadas na frente de sua casa, no caminho da escola ou ao lado do trabalho. O que tem elas? Essa é a verdadeira questão, o que elas têm de mais? O que as fazem ser mais especiais que qualquer outra?   Essa é um problema que você terá que responder e para isso pare e olhe. Olhe para como ela rompe do chão a erguesse ao céu.   Como seus galhos se espalham, propagam sua força e, com o soar do vento, suas folhas voam e dançam. Como o doce cavalheiro, com uma reverencia, pega em sua mão e a doce dama verde gira com ele na rua. Eles rodam e como em uma valsa bailam em pleno ar, girando e girando, rodam seus corpos invisíveis e, beirando ao romantismo c...

O grande tambor no peito

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Os tambores tocavam frenéticos, batidas duplas sequenciadas. Misturados, eclodiam e se espalhavam. Passo após passo, se confundindo na multidão. Mais e mais pessoas passam, numa correria intensa, vidas corridas e talvez não muito vividas, quem sabe. Cada um com seu tambor na grande metrópole, na correnteza do rio humano que deságua nas ruas e se espalha pela cidade. Epifania! Uma pessoa para. Uma única vida para no meio do maquinário urbano. Seus olhos percorrem o ambiente, seus ouvidos atentos escutam os barulhos ressoando. Carros e a gritaria de uma cidade agitada, talvez um pouco demais. Cada pessoa no seu mundo correndo pelas incertezas, guiados pelos tiques dos relógios em sua fome desenfreada do consumo, alguns chamam de busca pela felicidade. Porém, talvez seja somente o gosto pelo preenchimento. Felicidade, uma palavra engraçada. Todos a procuram, a cidade está cheia dos intrépidos exploradores. Uma caçada mortal pela alegria. Porém, na cacofonia da cidade,...

O outro Eu

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Eu... O quão engraçado é pensar que uma simples palavra de duas letras ilustra tudo o que uma pessoa representa. Fragmentada em diversos pedaços, compartilhada em outros. Isso é ser eu, é ser um você em mim e um eu nos outros. Penso que somos um eu completo quando das amarras da inconsistência damos a brecha. Palavras complicadas essas? Creio que sim. Acho que hoje dou-me por filósofo, um pensador esporádico que, em seus minutos de loucura, deslumbra o belo significado de ser um eu. Engraçado? É claro! Não é muito de todos a ideia de se refletir no que de verdade é ser e é isso que todos pensam. Eu simplesmente sou, um eu no meio de uma multidão de tantos eus por ai. E esse é o grande problema, são muitos eus bagunçados em nós. Pessoas que caminham nas ruas presos aos relógios que, aparentemente, rodam suas setas nos pulsos, perdidos no próprio tempo, que não tem. Segundo após outro, nas estradas do trabalho e na correria de uma vida. Vivendo o passado e temendo o futu...